Como começamos a colecionar? Análise do texto de Krzysztof Pomian

Imagem: Museu Soumaya - Cidade do México, México.
Fonte: Site oficial Museu Soumaya.

Enquanto estudantes de museologia, a história dos museus nos surge como introdução ao mundo de estudo desses espaços de conservação e preservação da memória. 

Umas das principais questões trazidas para nós, alunos, é o motivo de os seres humanos terem começado a preservar certos objetos, passando à busca por certos objetos perdidos, e depois a conservação de uma diversidade infinita deles. Como surgem a ressignificação de objetos e "instinto" de preservação? Talvez eles tenham surgido junto às coleções. Por isso, nesta postagem, alguns conceitos de Krzysztof Pomian serão apresentados junto a indicações ou observações feitas em sala de aula e informações pesquisadas posteriormente.

O texto, reunido a outros que abrangem aspectos de memória e história no volume 1 da Enciclopédia Einaudi, nos anos 1970-1980, é rico em exemplos e minucioso nas explicações dos conceitos que traz. Pomian inicia, com certo humor, a questionar o leitor sobre como obras sem valor de uso podem alcançar cifras exorbitantes e fragmentos de artefatos cerâmicos sem utilidade aparente são tão importantes e expostos em espaços prestigiados de coleções, feitas somente para expô-las ao olhar. Em alguns casos, segundo o autor, é por prestígio, para mostrar os gostos do colecionador ou também seus interesses de estudo. Mas os motivos de coleções e escolha de objetos para fazer parte dela vão mais além, e se aprofundam, nos seguintes subcapítulos, as questões de utilidade versus sentidos, o olhar de quem e o que são as coleções.

Krzysztof conceitua coleções como "Conjuntos de objectos naturais ou artificiais, mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das actividades económicas, submetidos a uma protecção especial e expostos ao olhar (...)". A partir dela, o autor nos introduz às coleções tumulares, principescas, de genereais romanos, oferendas aos deuses e deidades, às relíquias e coleções da Igreja Católica. Os exemplos históricos, da tumba da princesa chinesa Tong-T'ai do ao de 706; templos de deuses gregos e os sistema de preservação dessas oferendas (e, curiosamente, utilização dessa oferenda para posteriormente pagar ao deus ovacionado com juros, como um tipo de "legalização" do saque respeitoso); a retirada da mão de S. Tiago para a Inglaterra que resultou danos irreparáveis para o Reino Franco; os três mil novecentos e seis objetos do rei francês Carlos V, entre outros, enriquecem o texto e nos informa a grandiosidade das coleções.

Uma parte importantíssima do texto é a explicação sobre o objeto em geral, sobre sua utilidade ou significado e como isso representa o mundo visível e o mundo invisível: se "A" representa "B", bom, "A" é visível enquanto "B" é invisível. Na disciplina de Museologia e Teoria do Objeto questionamos um pouco essa dualidade por causa do discurso do autor Baudrillard em que objetos novos, de muita utilidade, não teriam significado, e a turma relativizou isso, tendo em vista que o significado é dado com o tempo, tanto por quem o utiliza como por quem o descobre depois. Mas isso é uma discussão que quero me aprofundar muito, mas muito mais para ter alguma ideia mais centrada. O que reconheço é que as dimensões semióforas dos objetos são apresentadas nos museus, e elas (as vezes nem todas) são reconhecidas pelo observador. As facetas serão apresentadas nesse espaço de exposição, e absorvidas de acordo com a informação passada, com a ressonância que ela tiver com quem a olha.

Sobre as coleções em si e os museus, o subcapítulo é interessantíssimo, e por si só já valeriam a leitura. As coleção são a base do museu, como disse a Professora Zita em sala de aula. Pomian deixa claro, mostrando todo o processo de criação dessas coleções pelos grupos sociais mais abastados, como era (e é!) excludente a aquisição de itens semióforos. Como essa exclusão era sentida, e a abertura dos conhecimentos e espaços foi demandada e assim, com pressão popular, começaram as aberturas de bibliotecas, museus e posteriormente arquivos. 

O autor cita como o mecenato era um meio de legitimação do poderio e também como um meio de propaganda política. Não deixa de ser atual a frase da página 79, mesmo que hoje não sejam coleções propriamente ditas, "Em resumo, as colecções que, para os membros do meio intelectual e artístico, são instrumentos de trabalho e símbolos de pertença social, são para os detentores do poder insígnias da sua superioridade e também instrumentos que lhe permitem exercer uma dominação nesse meio". Assim, as coleções e formas de aquisições de objetos semióforos são mais um campo de disputa. 

A criação de museus, para o autor, podem ser adquiridas por (p. 83) "doação, compra de coleções particulares pelo Estado, da nacionalização das antigas propriedades reais, nobiliárias ou eclesiásticas - como aconteceu em França durante a revolução - ou do estabelecimento de uma fundação sem fins lucrativos - que está na origem dos grandes museus americanos -, no ponto de partida de todo grande museu, senão de todo museu, existe um acto das autoridades públicas ou de uma colectividade".

Para exemplificar isso, tem-se como exemplo em Porto Alegre, a Pinacoteca Ruben Berta, que junto com a Pinacoteca Almeida Júnior de São Paulo, recebeu a doação da coleção privada de Assis Chateaubriand. Trouxe, no início desse post, a foto do Museo Soumaya, um museu criado a partir da coleção privada da esposa de Carlos Slim, a senhora Soumaya. Esse é um dos poucos museus que tem entrada gratuita no México e possui um acervo incrível de obras de arte, arte em marfim e coleção de moedas e cédulas de países de todo o mundo. Aqui, o link para a página de coleções do Museu Soumaya e aqui o link do blog da Pinacoteca Ruben Berta.

Referências:
POMIAN, Krzysztof.  Colecção. In: Enciclopédia Einaudi. V. 1 (Memória-História).Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984. p. 51-86

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