Reflexões sobre o significado de obras e a Revolução Francesa
Considerações sobre o artigo "Os primórdios do Museu: da elaboração conceitual à instituição pública." de Ana Cláudia Fonseca Brefe.
A autora nos contextualiza na criação dos museus, primeiro a nível europeu e posteriormente na França, e compara essa criação e as influências que a ideia de museu neste país em específico recebeu de outros países. Brefe chega a citar a Itália como país molde dos museus do século XVIII. Então por que vemos a França como centro da museologia? A autora parece responder nas entrelinhas, que, a ideia de museu público que temos hoje é reflexo dos ideais revolucionários e iluministas da revolução burguesa de 1789, daí se expandindo pra a o mundo ocidental.
Os decretos da Assembleia Nacional que deram origem ao museu público são: "de 2 de novembro de 1789, que nacionaliza os bens da Igreja católica; de 9 de novembro de 1791, quando os bens emigrados são todos confiscados; e, finalmente, em 8 de agosto de 1793, quando é decretada a supressão das Academias" (páginas 303 e 304). É interessante ver que a partir desses decretos é que se percebe a necessidade de inventariar e catalogar os bens e tomar medidas de preservação. Inventariar e catalogar, mais tarde, torna-se um dos principais instrumentos de estudo e conhecimento no espaço do museu.
Como tudo nessa vida, nem sempre foi um mar de rosas. Por um decreto de agosto de 1792 que "estabelece a incompatibilidade entre a ideologia da Revolução e as obras e monumentos do Antigo Regime que, vistos como símbolos da realeza, do feudalismo e do despotismo tornam-se alvo imediato de destruição e depredações". É de se imaginar quais obras foram perdidas, ícones, esculturas... Uma pergunta a levar para a sala de aula: se há um estudo sobre o que foi perdido (será que elas já tinham sido inventariadas antes da destruição, ou foram destruídas as que estavam em via de?).
Mas, a inconsequência dessas depredações forçaram a apresentação de um projeto à Assembleia Nacional com intuito de conservar e preservar as obras que representavam o antagonismo dos preceitos da Revolução. Aí, Brefe traz informações sobre o surgimento da noção de que se pode modificar o significado dos objetos - ou dar outro foco ou maior foco a um sentido diferente-, quando dentro dos museus. A autora cita Guillaume 1980 (página 307): "Eles perdem seu valor de memória intencional (quando de sua criação) e adquirem um valor de memória outorgada ou simples antiguidade" e assim obras universais foram preservadas por causa de sua ressignificação. Obras universais estão a salvo para preservar a memória de todos os regimes.
Terá aí um quê de semiótica a se estudar junto com a genealogia dessas obras?
P.S: quero muito me aprofundar nos aspectos finais do artigo, o que considerei uma legitimação dos saques franceses à cultura de outros países por se considerarem (grifo meu, página 313) "uma instituição universal no sentido mais amplo do termo, isto é, não apenas deve abarcar todos os ramos do conhecimento, mas é, sobretudo, receptáculo de todas as obras primas da humanidade", para então ter uma opinião mais concreta sobre o assunto.
Referência: BREFE, Ana Cláudia F. Os primórdios do Museu: da elaboração conceitual à instituição pública. Projeto História, São Paulo, n.17, p.281-315, nov.1998


Comentários
Postar um comentário