XI Mostra de Cinema e Direitos Humanos - no Capitólio!
Imagem: Fotografia da sala de cinema do Capitólio.
Fonte: Acervo pessoal, 2017.
O Capitólio é um espaço que me chamava muita atenção, ainda antes das usas reformas. Eu passava por ali, e, criança, imaginava as luzes antigas e amareladas numa época cheia de gente vestida ao estilo anos 20 e fumando à beça. As portas já estão abertas, mas agora (ainda bem), pra um público bem mais diverso e (ainda bem) com restrição aos fumantes.
A Mostra de Cinema e Direitos Humanos iniciou em 2006, e a sua 11ª edição está prevista nas 26 capitais do Brasil e no Distrito Federal. A iniciativa está ligada à Secretaria Especial de Direitos Humanos e tem como base a Declaração dos Direitos Humanos de 1948.
O cinema é uma ferramenta expressiva para a reflexão e insere emoções fortes que, em mim, e na maioria dos colegas e alguns dos demais participantes, exige um debate, exige um momento de discussão, ou de expor mesmo os sentimentos. Explicarei depois do porque disse alguns dos demais participantes.
Vimos:
"A história da menina que amava borboletas", da diretora Paula du Gelly;
"Precisamos falar do assédio", da diretora Paula Sacchetta;
"Pobre Preto Puto", do diretor Diego Tafarel;
e "Carol", dirigido por Mirela Kruel.
Todos foram muito bem feitos, com temas importantíssimos. Sempre acho incrível notar como as perspectivas dos diretores são diferentes: tenho certeza que as mesmas histórias seriam contadas completamente diferentes se eles trocassem de projeto. E essa diversidade toca muito quem está assistindo, são diferentes discursos, são diferentes panoramas, diferentes vidas, diferentes percepções de mundo, diferentes problemas e obstáculos, diferentes experiências de vida.
Se fosse pra escolher o que mais me tocou, teria que ser o Precisamos falar de assédio. Porque tem uma sintonia mais forte comigo, o assédio está aí, já senti e sinto ainda. Só que é pesado, muito pesado, ainda mais que eu não estava preparada pra tanta informação e tantos depoimentos sofridos. O projeto para a criação do documentário (?) foi assim: uma van parava em centros, periferia e bairros abastados de determinadas cidades, e as mulheres eram convidadas a contar o que quisessem sobre suas experiências de assédio. O que quisessem, pois não havia um entrevistador, não havia cortes nas falas, nem direcionamento para algo que um diretor ou entrevistador pudesse querer levar, e isso foi muito puro, muito cru. Trouxe, de novo, a diversidade de olhares que falei antes. Entrando na van, elas ficavam sozinhas, com a possibilidade de não se identificar ou não, e falavam.
O documentário traz 26 depoimentos, de 140 depoimentos recolhidos voluntariamente. É muita gente! É muita gente que precisa falar e não tem espaço. Tiveram mulheres que estavam contando pela primeira vez assédios da sua infância! É doloroso.
Antes, eu havia falado que alguns dos participantes também ficaram perplexos pelo Precisamos falar de assédio. Disse alguns porque na sessão de hoje, acredito que três turmas de adolescentes tinham essa sessão como um passeio escolar. E eles riam, e riam e riam dos depoimentos. Eu só quero por a responsabilidade disso na imaturidade em ouvir a palavra porra, pênis e vagina, e que isso é resultado de que tão fechadas são as famílias e as escolas para a discussão de sexualidade. Eles não conseguiam se dar conta da profundidade dos problemas de machismo e de agressão porque é tabu falar de porra, pênis e vagina. Vamos lá: porra, pênis e vagina. Porra, pênis e vagina. Deu? Já se acostumou? Dá pra falar de estupro, assédio e machismo agora? Mas não acredito que seja só por causa desse tabu. Porque riam de pessoas que não eram do padrão de beleza, riam do relato de uma pessoa idosa. Até que, uma colega fala: "vocês acham isso engraçado?" e depois comenta: "as professoras só faziam 'shhhh', como se o problema fosse falar qualquer coisa e não falar merda como eles estavam fazendo". Resumiu tudo.
Agora, voltando sobre o tema, teve uma das mulheres que falou em seu depoimento que se ela tivesse vivido essa primavera feminista há alguns anos, ela talvez tivesse levado o assédio para ser discutido dentro de casa. Que bom ser feminista e ter discussões, que tenhamos mais abertura e mais força juntas. Trago então convites:
Exposição curricular dos alunos de Museologia da UFRGS "Nós podemos! A mulher da submissão à subversão", até 24 de junho de 2017, no Museu da UFRGS (Av. Oswaldo Aranha, 277, Porto Alegre, RS).
Exposição "Minhas Memórias, Nossas Histórias", que fica aberta ao público até o ano ano que vem, por conta da grande adesão do público, no Memorial do Judiciário do Rio Grande do Sul, no térreo do Palácio da Justiça. Ele fica na Praça Mal. Deodoro (Praça da Matriz), 55.
Exposição sobre feminicídio e os números no Rio Grande de Sul, também no Memorial do Judiciário, só que no saguão. Fica aberto para visitações até 10 de julho.
Leitura do livro Misoula, de Jon Krakauer (Sim! É o autor jornalístico que escreveu Na Natureza Selvagem e No ar Rarefeito!). O livro é uma análise sobre os números dos assédios em universidades estadunidenses em comparação com os dados de advertência/repreensão dos alunos. Ele mostra o descaso das universidades e as dimensões que isso afeta nas vidas das estudantes.
Aqui temos a programação do Capitólio, e para mais informações sobre a Mostra, segue aqui o site oficial.


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