7º Fórum Nacional de Museus - Conferência I Recomendação Unesco 2015 para Proteção e Promoção dos Museus e Coleções - François Mairesse


O conferencista é presidente do Comitê Internacional para a Museologia do Conselho Internacional de Museus. Além disso, é Professor de Museologia e Economia da Cultura (talvez daí que surgiram os estudos e reflexões que comentarei em breve nesse post) na Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris 3 e de Museologia na Escola do Louvre. Foi ele quem escreveu o estudo preparatório para a criação das recomendações da UNESCO.

O documento está em diversos idiomas. Para acessar, clique aqui. O texto não é disponibilizado em português.

François não tocou muito nas recomendações da Unesco, ele deu uma breve linha do tempo sobre como ela aconteceu, a importância que a diplomacia brasileira e o estatuto brasileiro teve, sobre como ele foi um dos responsáveis pelo rascunho da recomendação e como ele tinha receio de que a versão oficial fosse muito diferente da escrita por ele. Além da ajuda do Brasil, República Tcheca e Filipinas, a parceria com o ICOM foi importantíssima para a elaboração da Recomendação.

O conferencista tocou num ponto importante, de que para nós, que somos do meio museológico, que estamos em contato direto com conceitos-chave, que já reconhecemos a importância dos museus, as recomendações parecem ser óbvias. Segundo ele, nós temos que nos dar conta de que esse documento é para todos e principalmente para os que ainda não tem essa noção criada. É para que seja reconhecida internacionalmente a importância dos museus e sua diversidade, e esse documento é uma ferramenta a ser utilizada para promover cultura e a memória dos povos dos quais cada país tem jurisdição sobre.

Mairesse entra então em assuntos de problematização atuais: a comunicação e tecnologia em museus, o domínio geopolítico no meio museal, a relação entre museu e economia e crise.

Sobre a comunicação e tecnologia, uma fala que merece atenção foi a de que "isso não é a alma do museu, por mais que influencie". Digo atenção porque atualmente queremos tudo de forma muito imediata, porque o imediatismo é apresentado às pessoas como a melhor forma de aproveitar uma experiência: "saiba imediatamente quem produziu a obra com o aplicativo X", "acesse o conteúdo exclusivo, pagando X por mês". Devo dizer que não sou contra a tecnologia, realmente acredito no potencial que ela tem, mas prefiro outros aspectos do museu e da museologia - ao menos por enquanto. Um museu sem tecnologia de ponta não deveria ser menosprezado por causa disso. Escolas deveriam continuar visitando, governos deveriam continuar dando apoio aos que tem menos visitação por conta disso, e a comunidade local deve sentir que tem outros meios de aprender com o museu e interagir com ele caso não haja tecnologia. A comunicação e a tecnologia recriam a visita.

A partir daí iniciou-se a problematização sobre o domínio de museus e países específicos na internet em geral e em redes sociais. Isso foi para mostrar que a democratização que o meio digital proporcionaria não é tão participativo assim. François demonstrou a relação do poderio econômico e a tecnologia dos museus.

E os links não param por aí: "Museu é sinônimo de crescimento econômico", e explicitando isso com os gráficos e tabelas de crescimento econômico e abertura de novos museus. Essa parte me lembrou muito o livro "A Fabricação do Imortal", porque é uma nova dimensão do que Regina de Abreu fala: no livro, uma coleção pessoal é doada a um museu para demonstrar poderio, no país, se cria museus para afirmar a riqueza e potencial. O museu fica, mais uma vez, como forma de legitimação.

Do poderio econômico à economia no museu: como o neoliberalismo transformou o museu como renda. E como o neoliberalismo junto à atividade turística de massa visa um museu utilitário. E, como disse François, "Se consideramos que o museu tem que ser útil para um fim específico, o museu será inútil", se referindo à museus-atração.

Da economia à crise, de novo com números, Mairesse apontou sobre como crises influenciaram a abertura de museus. Os ciclos são assustadoramente parecidos considerando que a cultura recebe cortes fortíssimos de investimentos. Como investir e preservar a cultura em momentos como esse? Um questionamento muito similar foi levantado por um ouvinte internauta. François então, explica que a carência que estamos sentindo hoje no Brasil na preservação da cultura, foi a carência que os países mais reconhecidos hoje no meio museal também sentiram na década de 70. Que fóruns de debate como o nosso são importantes, que o estado não faz as políticas acontecerem sem demanda, que devemos participar de redes. Ele brinca, com um fundo de verdade, que o museu como economia criativa uma hora vai se esvair e que teria valio mais a pena ter feito um cassino ou uma piscina no lugar.

A participação desse internauta e do Mário Chagas foram importantíssimas para a reflexão do tema. 

Gostei muito de ter assistido à essa conferência, os debates foram interessantíssimos e a magnitude da museologia ficou ainda mais presente nas minha reflexões. Conhecer o pensamento de François e de Mário Chagas foi uma ótima introdução para o 7º Fórum Nacional de Museus.

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