Comentários sobre artigos de Comunicação em Museus - Parte I
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| Pinacoteca Aldo Locatelli, Porto Alegre, 2017. |
Resenha I - Comunicação em Museus
A partir dos textos “Perspectivas de la cultura digital”, de Arturo Colorado Castellary; “A Lua Pertence a Todos”, de Mike Murawski e “Museus e suas tipologias: o webmuseu em destaque” de Patrícia Leopoldina Ventura Amorim da Costa Santos e Fábio Rogério Batista Lima pode-se compreender uma lógica da era digital, sua influência na cultura e nos museus; fazer reflexões na realidade brasileira e no que já mudou com as redes sociais. Os três textos se complementam ao mesmo tempo em que são muito diferentes (em objetivo, estrutura, conclusões).
Colorado (2010) está muito mais voltado para a reflexão de como a cultura está se construindo na era digital, como o seu público se relaciona com a cultura e as TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação), e os desenvolvimentos das TIC e seus usos na cultura digital. Ele vê essa nova era como uma nova etapa do conhecimento. Neste ponto, Santo e Lima (2014) citam Barreto (2008, p. 1):
“(...) o ideal compartilhado seria o de se construir uma sociedade do conhecimento não só uma sociedade da informação (...), pois (...) a sociedade da informação é uma utopia de realização tecnológica e a do conhecimento uma esperança de realização do saber”
Estamos numa sociedade de informação ou de conhecimento? Nenhum dos autores parece responder isso de forma explícita. Porém, ao menos, Murawski (2015) afirma que os museus não devem se nortear pelas TIC, eles devem usufruir delas em prol do conhecimento. As tecnologias não seriam o foco das atualizações e renovações museológicas, mas sim a interação e abertura do acesso que elas propõem ao público. As ideias de Murawski (2015) me fazem compreender que, enquanto estivermos focados nas tecnologias, seremos participantes de uma sociedade de informação, e quando estivermos focados em utilizar a tecnologia em prol do saber (como disse Barreto, 2008), estaremos construindo a sociedade do conhecimento.
Me parece que essa linha - entre nortear-se pela tecnologia e usufruir delas - é tênue, mas que deve se tentar ao máximo distinguí-la. Como podemos fazer essa distinção? Uma boa resposta surgiu do texto: “Estamos ligados?” (resenhado aqui), de Alexandre Matos, publicado em 2013. A resposta está na estratégia, saber o que se quer comunicar, quem se quer atingir. Atingir com o conhecimento, independente das tecnologias; e ter as tecnologias como expansores de quem se atinge.
Murawski (2015) escreve um texto acessível, com uma visão otimista sobre as possibilidades e deveres dos museus com as TICs. Ele comenta sobre a dicotomia que se cria em debates sobre o museu físico versus museu tecnológico, e como, na verdade, a relação não deve ser polarizada, mas empenhada num trabalho em conjunto e contínuo. O autor dá exemplos sobre fontes abertas (“open source”), e comenta sobre as vantagens de disponibilizar as informações. Acredito que neste ponto, cabe uma discussão maior e mais profunda sobre a open source, pelas questões de direitos autorais e reconhecimento de pesquisadores, artistas, e profissionais envolvidos na criação de conhecimento.
Ele também aborda a questão da autoridade do museu e a necessidade de redefinição da instituição. A sociedade não é mais passiva nas informações, como antes recebia prontamente a informação do museu e o usava como praticamente a única fonte concebível de pesquisa dos conteúdos presentes nele. Murawski (2015) vê positivamente que mais vozes sejam ouvidas (e eu também); é interessante notar, porém, que ele não se atém ao fato de grupos contra museus ganharem voz (e força), ao ponto de causar o encerramento de uma exposição, como a Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre. Talvez a questão da voz ter força ou não está mais ligada ao contexto social do que o museu em si, mas não podemos separá-lo e distanciá-lo desse debate. Por fim, a maior parte do texto trata das possibilidades de conexão para os museus e um apelo às instituições e órgãos representativos para atividades que utilizam tecnologias da web; o autor levanta ótimos exemplos de instituições museológicas e suas conexões com o público, muito além de somente digitalizar o acervo de coleções.
O termo webmuseu é escolhido por Santos e Lima (2014) como o mais adequado para o que estávamos vivenciando no ano de sua publicação. Eles retomam as tipologias do museu e fazem um levantamento teórico sobre as definições de autores sobre “museu virtual”, “cibermuseu”, e “webmuseu”; o que torna mais compreensível a escolha pelo último. Webmuseu, seria (SANTOS, LIMA, 2014, p. 66):
“um ambiente informacional virtual, dinâmico e interativo sem fins lucrativos, que funciona sem barreira de tempo e de espaço geográfico e que reúne, expõe e divulga simulacros (reprodução) de obras de arte atualizadas, obras de arte originárias de processos orgânicos ou criadas por softwares de criação de imagens e que se utiliza de ferramentas audiovisuais (imagem, som, vídeo) e da comunicação em rede para possibilitar o acesso à contemplação, ao conhecimento e ao entretenimento, destinado a um grande número de pessoas usuárias em posse de um dispositivo eletrônico, conectado à rede Internet.”
Considero que, das informações reunidas pelos autores, a mais importante é o quadro de categorias de websites de museu segundo Maria Piacente, que o escreveu em 1996. Adaptado desta autora, SANTOS, LIMA, (2014, p. 64) apresentam o seguinte quadro:
"CATEGORIAS DE WEBSITES DE MUSEU:
- Folheto eletrônico (eletronic brochure): Apresentação do museu, a partir de uma ferramenta de comunicação e de marketing. O utilizador tem acesso à história do museu, aos horários de funcionamentos e, às vezes ao corpo técnico do museu. É o tipo mais comum em quase todos os museus, sendo alguns mais elaborados, dependendo dos recursos disponíveis, mas todos têm como objetivo principal ser uma apresentação visual, tal como um folheto. Nesse caso, a Internet funciona como uma forma de tornar o museu mais conhecido e possibilitar acesso às visitas presenciais
- Museu no mundo virtual: Apresenta informações mais detalhadas sobre o acervo e, muitas vezes, proporciona visitas virtuais. O site projeta o museu na virtualidade, e, muitas vezes exposições temporárias que já não se encontram mais montadas em seu espaço original, fazendo da Internet uma espécie de reserva técnica de exposições. Muitos deles disponibilizam bases de dados do seu acervo, mostrando objetos que não se encontram em exposição naquele momento e informações sobre determinado assunto
- Museus Realmente Interativos: Presença de elementos de interatividade que envolvem o visitante. Às vezes, o museu reproduz os conteúdos expositivos do museu presencial e em outros casos, o museu virtual é bem diferente. Os museus interativos trabalham com o público de modo especial e a interatividade permite que o público atue na proposta oferecida pelo museu."
Fonte: SANTOS, LIMA, (2014, p. 64)
Esse quadro, pelas pesquisas em sites de museus feita brevemente e superficialmente por mim, em 2017, reforça esse quadro. Ele representa a realidade brasileira dos museus na Internet. Como crítica, os autores não parecem reconhecer quão trabalhoso (o quanto se necessita de recursos humanos e financeiros) para ter um “Museu Realmente Interativo” ou o “Webmuseu”, pois comentam que instituições museológicas de porte pequeno não utilizam as TIC, por desconhecerem “o potencial das TIC no serviço museológico, ou pouco oferecem em relação às coleções pesquisáveis e ao acesso online aos seus catálogos. (SANTOS, LIMA, 2014, p. 64)”. Reduzir a não utilização de tecnologia por museus pequenos à somente uma frase e duas opções é superficial, é desconhecer e ser acrítico da realidade das pequenas instituições, ainda mais se tratando de museus pequenos no Brasil.
O ponto positivo é que a consideração final - de que é necessária uma melhor conceituação de webmuseu e a mudança do próprio conceito de museu pelo ICOM (International Council of Museums) - é desafiadora e importante para realizar melhorias nos museus, já que todos estamos inseridos numa sociedade híbrida, entre físico e virtual.
Colorado (2010) aborda diversos pontos importantes em seu artigo, informando a história dos desenvolvimentos das TIC, comentando sobre a grande dificuldade de acesso democrático e universal à cultura digitalizada; em como estava a cultura digital no ano de sua pesquisa; e em como devemos fomentar grupos e instituições de pesquisa no âmbito de cultura digital. Durante o seminário, levantamos diversas questões, mas acredito que o mais importante deste texto é que, mesmo sendo de 2010 (muitas tecnologias mudaram, a hiperconectividade que ele se refere ao texto já foi alcançada e ultrapassada), ele aponta meios de debate. Podemos questionar o que realmente mudou, como o leitor agora é leitor-autor (tem mais autonomia na construção do seu saber) já que ele escolhe o seu caminho, mas que, ao mesmo tempo, o caminho é construído por algoritmos. A narrativa é dos algoritmos, as bolhas estão cada vez mais fortes. E isso, por quê? Segundo Colorado (2010), é porque nada é desinteressado, há uma indústria do conteúdo, e se não a estudamos - nós, universidades e instituições de pesquisa - a narrativa é tida como natural, como se ela fosse tal qual existe no mundo físico.
Referências
COLORADO, Arturo. Perspectivas de la cultura digital. Zer 15-28, 2010.
MATOS, Alexandre. Estamos ligados? Museus e redes sociais, Informação ICOM.PT, série 2 n, 21, jun-ago 2013.
MURAWSKI, Mike. A Lua pertence a todos. In: MENDES, Luis Marcelo (Org.) Reprograme: tecnologia, marca e cultura numa nova era de museus – Rio de Janeiro : Livros de Criação | Ímã Editorial 2015.
SANTOS, Plácida e LIMA, Fábio. Museu e suas tipologias: o webmuseu em destaque Inf. & Soc.:Est., João Pessoa, v.24, n.2, p. 57-68, maio/ago. 2014.


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