Exercício de documentar um objeto: meu cartão-postal
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| Cartão-postal Sacre Coeur, Gabriela Mattia, 2017. |
Um dos trabalhos que eu mais gostei de fazer esse semestre foi o primeiro da disciplina de Sistema de Documentação em Museus. Mesmo que eu ainda não me sinta segura em realizar a documentação de uma coleção, a pesquisa de objetos e seus significados me fascina!
No semestre anterior também trabalhei com uma pesquisa similar, porém cheguei a me aprofundar mais do que a que fiz para este trabalho (a pesquisa de Teoria do Objeto teve como resultado um artigo). Mesmo assim, o prazer que tive foi de conhecer mais sobre um objeto que coleciono e ter o sentimento de estar usufruindo dos conhecimentos da museologia <3
Espero que gostem!
BREVE ANÁLISE DE UMA LEMBRANÇA MATERIALIZADA
Recorrendo às matrizes dimensionais de Peter Van Mensch (1987), pode-se reconhecer um contexto dos objetos, desvendando-lhe códigos funcionais e expressivos, indicando sua materialidade e transformação histórica. O objeto cujas dimensões serão apresentadas abaixo é um cartão-postal, comprado no Centro Georges Pompidou, Paris, em 2016, por mim, em uma viagem de lazer.
O cartão-postal, intitulado Sacré-cœur, mede 10,5 cm por 15 cm, é feito em papel de gramatura superior à uma folha de ofício de 75g/m². Na frente, a imagem utilizada é a reprodução de uma foto em preto e branco de um homem idoso alimentando pombas que estão planando no ar, em frente a um monumento histórico de Paris: a Sacré Cœur. A foto está centralizada, com margens brancas de 0,3 cm. O homem está de chapéu, com a mão e braço direito levantados para alcançar comida às pombas; usa casaco grosso de inverno, uma manta grossa e sorri timidamente; ele está voltado para a esquerda, o vemos de perfil, somente do tronco para cima; ele está posicionado na direita da foto. Há 20 pombas aparentes, 14 voam em diferentes direções, 4 estão pousadas na mão do senhor e duas estão paradas em galhos de árvores, ao fundo. A Basílica de Sacré Cœur está ao fundo, em último plano, desfocada, indicando uma sutileza do fotógrafo, que capta um momento de interação do homem com as pombas em frente ao atrativo turístico e patrimônio de Paris.
O verso tem grande espaço para a escrita de uma mensagem, endereço e colagem de selo. Tem inscrito, em letras pequenas, informações sobre o cartão-postal e os direitos autorais: “François Le Diascorn NB 549; Sacré-cœur, 1980; The Sacre-Cœur, 1980; © 2011 François Le Diascorn / Rapho; Éditions du Désastre - 75006 Paris - www.desastre.com; Printed in France” Há também dois códigos de barras com numerações diferentes: 3700004310019 e 3700275703886. Não há textura em nenhum dos lados do objeto. Assim, entende-se que o cartão-postal foi feito a partir de uma foto do fotógrafo François Le Diascorn, em 1980; foi impresso na França, pela empresa Éditions du Désastre, mas o site indicado não está disponível (até a data de 31 de outubro de 2017).
Segundo FRANCO (2006), os cartões-postais surgiram pois seu contexto histórico (questões econômicas e sociais) demandou um novo tipo de comunicação: mensagens simples e diretas. A autora informa que Emmanuel Hermann recebe os créditos da invenção do cartão-postal; em 1869 ele escreveu, na Áustria, um artigo sobre o postal e promoveu a regulamentação da sua comercialização, necessária pois o produto mostrava abertamente a mensagem. Este ponto, segundo FRANCO (2006, p. 27 apud VASQUEZ, 2002), “foi decisivo para seu sucesso num período de grandes conflitos e confrontos bélicos, pois permitia acesso imediato dos censores às mensagens veiculadas”. Ela conclui (FRANCO, 2002, p. 27): “ironicamente, o cartão-postal que hoje associamos a idéias de lazer e felicidade, teve como função inicial comunicar a amigos e parentes uma única notícia: a sobrevivência.”
Mesmo usando o termo “função inicial” para um período que remete às últimas décadas de 1800, a autora traz seis apontamento de HUNT (2005) e DALTOZO (2006) sobre o desenvolvimento do objeto no decorrer da história (FRANCO, 2006, p. 30):
Quadro 1: Gênese do Cartão-Postal.
Fonte: FRANCO, 2006, p. 30.
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É interessante notar a relação entre os países com alto nível de atividade turística e o comércio de cartões-postais. Segundo os dados de 2006 que a autora traz, na França, “o crescimento médio da produção de cartões-postais é de 2% ao ano; o mercado atinge a cifra de 350 milhões de euro por ano” (FRANCO, 2006, p. 31). Seria necessário um estudo mais aprofundado para saber se, com os meios digitais e redes sociais, estes número persistem. A partir disso, talvez pudéssemos entender mais a importância do cartão-postal no imaginário dos turistas, já que que o maior período de compra desses objetos é no período de maior movimento de turistas e de viagens domésticas dos franceses no país (FRANCO, 2006).
Como os cartões-postais são feitos de diferentes tipos, mas em sua maioria absoluta, de papel, sua deterioração por fatores exógenos pode se dar através da exposição à níveis de luminescência impróprios para esse material, água, umidade imprópria, fogo, ações antrópicas. Como fatores de deterioração endógenos, alguns materiais ou tinta podem ser ácidos e resultarem no “desbotamento” da imagem e “amarelamento” com o tempo.
Como significado principal (MENSCH, 1987), o cartão-postal foi concebido como um produto a ser comercializado. Este produto caracteriza-se por ter a função de ser enviado, muito comumente em viagens, para alguém importante para o remetente, ou seja, envia-se uma mensagem e representa-se a viagem que está sendo realizada; pode indicar os locais por onde se passou. Atualmente também pode-se considerar que o cartão-postal serve como souvenir para o viajante.
O postal “Sacré-cœur” é, para mim, um item da minha coleção. Em viagens, tendo a comprar marca-páginas e cartões-postais como recordação. Não sinto a necessidade de comprar no próprio atrativo turístico algum item de papelaria que o invoque na foto ou arte do postal, mas todos que compro são de lugares que visitei. Portanto, o Sacré-cœur tem significado simbólico (MENSCH, 1987) para mim em vários sentidos: ele representa a minha viagem de 2016 como um todo, mas também traz recordações da própria Basílica de Sacré-cœur - as sensações que tive lá, o trajeto que fiz e a vista que pude apreciar da cidade - e do Centro Georges Pompidou, que foi onde eu o adquiri. A foto me chamou muita atenção, ela tem um tom poético e sensível, de captar um momento e não só a paisagem, coisa que tento alcançar também com as minhas fotos. A ideia de ter um cartão-postal assim me fez comprá-lo e emoldurá-lo no meu quarto quando retornei a Porto Alegre. Seu significado expressivo (MENSCH, 1987) é, para mim, representar as alegrias da minha viagem à Paris e o que eu quero captar da vida, seus momento lindos e breves.
REFERÊNCIAS
François Le Diascorn. Disponivel em <https://francoislediascorn.com/> acesso em 29 de outubro de 2017.
FRANCO, Patricia dos Santos. Cartões-postais: fragmentos de lugares,pessoas e percepções. In: MÉTIS: história & cultura. Universidade de Caxias do Sul – v. 5. n. 9 (2006). Disponível em <http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/view/782/546>, acesso em 25 de outubro de 2017.
MENSCH, Peter van. A structured approach to museology. In: Object, museum, Museology, an eternal triangle. Leiden: Reinwardt Academy. Reinwardt Cahiers.1987
P.s.: Eu pensei que colocaria os trabalhos enxugados ou com um vocabulário mais legal, mas ainda não me decidi. O que acham?


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